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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Bagunça Tóxica, Revista Veja de 08 de janeiro de 2014

Resposta ao artigo de Cláudio de Moura Castro Bagunça Tóxica, Revista Veja de 08 de janeiro de 2014.

A culpa é minha?!

Enquanto lia o artigo (Bagunça Tóxica, Revista Veja, edição de 08 de janeiro de 2014) pensava em quão objetivo ele era, para um assunto que as pessoas preferem enfiar embaixo do tapete.  Quando falamos em bagunça nas escolas, todos têm sua opinião a dar, mas poucos sabem o que estão falando, como tudo em educação no Brasil. Louvo o articulista pelo texto, e o termo tóxico é perfeito para descrever a situação. Concordo com ele que a bagunça em sala é um transtorno para os profissionais e para a educação com um todo, inclusive para os alunos que não bagunçam. Mas estava feliz com o texto até chegar à primeira frase do último parágrafo. O autor escreve: "A solução começa na cabeça dos professores e diretores" (Revista Veja, 08 de janeiro de 2013).

Com todo respeito ao articulista, dizer que a solução começa na cabeça dos professores é mais uma vez assumir o discurso oficial raso, ridículo esgotado de colocar a culpa de tudo o que acontece na sala de aula sobre o professor. Com certeza, muitos leitores tão desinformados quanto o articulista e movidos pela mesma cegueira irão concordar com o mesmo. 

Entretanto, muitos de nós, professores, mesmo neste período de férias, ainda estamos estressados com a toxidade do ano letivo anterior. Pior que isso, já estamos nos intoxicando também com o ano letivo que virá. A solução para isso não começa na cabeça do professor, mas, ao contrário,  faz parte dos seus pesadelos. São eles também vítimas impotentes do sistema. Todos os dias o professor ou a professora se levanta de manhã e dorme à noite pensando em como contornar essa situação terrível da indisciplina, pensando que ele já tentou de tudo que se possa imaginar e não obteve retorno positivo. Uma situação na qual não há valor algum em tudo o que ele estudou, todo seu empenho em preparar boas aulas, toda sua dedicação e esperança que possa salvar uns poucos alunos desse mar de problemas e indiferença no qual ele trabalha. E ele é esmagado pela frustração de ver os alunos talentosos serem nivelados diariamente por baixo, desperdiçando as esperanças de um futuro melhor para ele e para o país. Isso tudo não lhe sai da cabeça mesmo durante as férias.

Já estamos previamente intoxicados somente de se lembrar de algumas situações terríveis com as quais nos encontraremos, do abandono dos alunos pelos pais, que jogam suas crianças na escola e querem dela tudo esperar e daqueles que, ignorantes, estimulam os filhos a brigar com os colegas e se impor aos professores. Lembramos também dos péssimos exemplos que prevalecem no país da impunidade, das salas lotadas, da frouxidão das leis que estimula a indisciplina dos alunos, da incapacidade dos órgãos públicos de lidar com os tabus da educação, da lentidão dos Conselhos Tutelares, da prevalência da política em detrimento da educação. Dentro desse clima vigente de desprezo pela educação em geral e pelo professor em particular cria-se esse terreno no qual não se fertiliza o conhecimento, mas a desordem.

Para finalizar, devo lembrar ao articulista que muitos dos professores que lecionam em escolas campeãs de desempenho são os mesmos que trabalham no contra turno em escolas públicas (até por conta de que são forçados a isso visto que os salários de professores em nosso país são uma vergonha, especialmente pelo nível de estudo dos mesmos, conforme recente matéria de Veja, na qual ficou claro que os professores, pelo nível de estudos, são a 2ª classe mais desvalorizada no país, sendo que em 1º e desonroso lugar estão os filósofos – “o que há de se esperar de um país desse?”, penso eu). Ora me fica a pergunta: ao sair das escolas onde reina a bagunça e ir para a escola onde reina o rigor tornam-se professores melhores? Se assim for, como eu acredito, nada desse discurso no qual o professor é tão despreparado assim, apregoado pelo Estado e adotado pela sociedade, é verdadeiro.

A solução não passa pela cabeça dos professores, que muito a querem, mas por jogar a filosofia do 68 francês no lixo, usar os recentes manuais de psicologia na lareira e assumir um  projeto de país, no qual não se vislumbra cabos eleitorais nos ministérios, mas homens competentes. Isto sim é um sonho em vão, mas que passa na cabeça de todos os professores. Não há futuro para este Brasil que se vende nas urnas.

Veja abaixo pesquisa da OCDE sobre a quantidade de alunos na sala:


                            

4 comentários:

  1. Boa noite!! Li o artigo do Cláudio para meus alunos de 9º ano e 1ªa série do EM. Conversamos sobre todos os problemas que envolvem a indisciplina e propus a eles uma negociação para o "silêncio":ou para a difícil tarefa de ficarem quietos por, ao menos, 25min.: eu trabalharia o conteúdo e depois, nos 10min finais, eles poderiam conversar "na boa"!!!Logicamente, os alunos quietos e interessados compartilharam com isso, mas... Os desinteressados e indisciplinados querem apenas bater papo durante toda aula! Fica muito difícil explicar com alunos conversando, andando pela sala, fazendo gracinhas, jogando papelzinho...Por mais que vc fale e peça a atenção destes, eles não param e dizem que não são só eles. A educação chegou ao fundo do poço no Brasil. Estou me aposentando e, infelizmente, não tenho esperanças de ver melhoras nesse importante setor. É como vc falou: os políticos é que são os mais bem pagos no país e os que menos fazem pela população. É lamentável o baixo nível de conhecimento dos alunos brasileiros, sabendo que o país necessita tanto de bons profissionais para crescer e se tornar um país de cabeças pensantes. Obrigada.

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  2. Olá Eliana, tudo bem? Obrigado pelo comentário
    Infelizmente, nosso país conseguiu, pela irresponsabilidade de nossos governantes, acabar com a educação e com a carreira de professor. Em consonância com o abandono da educação no Brasil e para piorar, ainda convivemos com a psicologia do “tudo pode” e “tudo é trauma”. Penso que um país no qual nem os bandidos temem o Estado, muito menos crianças em uma escola nem seus pais o farão. Aristóteles escreveu em sua obra Política, que se o estado não investir na educação de suas crianças, forçosamente gastará muito mais para controlar os adultos. Veja se o Brasil de hoje não é um ótimo exemplo: não há prisões suficientes para tantos...
    Seu cotidiano na escola é nosso martírio diário, de todos nós, aliás, com raríssimas exceções. E nessa loteria que é nossa profissão, devemos nos dar por felizes se em determinado ano pegamos uma escola boa, uma turma boa ou bons gestores, que nos apoiem nesse salvamento de almas que podemos fazer, que ainda conseguimos fazer, a despeito de tudo.
    Felizmente para você sua aposentadoria está próxima. Mas penso que deve pensar em tudo que fez pelos seus alunos. Quantos deles salvamos da marginalidade, quantos pudemos encaminhar para usarem suas capacidades. O resto não nos diz respeito.
    Penso ainda que o melhor que podemos fazer pela educação neste país é desestimular as pessoas a seguirem essa carreira. Sabemos que já há uma enorme falta de profissionais, fruto da seguida e insistente destruição de nossa profissão. Isso poderá ser bom no futuro, quando as escolas forem abandonadas, não pelos políticos, como são hoje, mas pelos professores. Talvez haja uma revolução na educação, que não veremos. Mas pouco disso podemos esperar, com um povo que insiste em eleger os mesmos irresponsáveis de sempre.
    Abraço solidário de professor...

    Emerson

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  3. Olá, Emerson

    Li o seu artigo e os comentários acima. Fico triste de partilhar da sua opinião de que os professores só serão valorizados quando estiverem realmente fazendo falta. Nossa sociedade destruiu a autoridade do professor, a escola admitiu e agora vivemos um caos sem solução próxima. Esta mesma sociedade se esquiva de sua responsabilidade na educação, já que este processo não ocorre apenas dentro da escola nas poucas horas em que os alunos estão dentro da sala de aula. Os filmes, as novelas, os jovens desocupados, não por não haver trabalho, mas porque não estudaram e os pais não se importam de sustentar seus eternos bebês (sim, eu vejo muitos destes perto da minha casa, perto das escolas em que trabalho, nos bairros onde meus alunos moram), a forma como a mídia se refere a jovens que já passaram dos 18 anos, chamando-os de meninos, a cultura instalada em nossa sociedade de minimizar a culpa dos transgressores da lei e colocá-la sobre os ombros daqueles que os deveriam combater, a inversão da autoridade nos próprios lares, comandados efetivamente por crianças sem maturidade alguma, mas que decidem sobre o consumo da casa e que regras seguirão ou não, submetendo pais que se sentem culpados e acham mais fácil comprar o carinho dos filhos com bens materiais, omitindo-se completamente de dar-lhes limites... Ufa! São tantos os fatores da indisciplina que é até difícil enumerá-los e a verdade é que em poucos deles a escola pode atuar efetivamente. Se a família, o Estado e a sociedade continuarem empurrando para a escola as suas responsabilidades, por mais que a escola faça, havendo ou não professores, continuaremos a desperdiçar gerações em depósitos tóxicos de seres humanos cada vez mais desumanizados.

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    1. Obrigado pelo comentário, Roberta, e assino embaixo de tudo o que você disse. Penso que a humanidade passou por um período de evolução importante, impulsionada, como as demais espécies, a superar os desafios, período após o qual dominamos as demais espécies. Todavia, na atualidade, tendemos a involuir, por conta das facilidades que a vida em grupo auxiliada pelas tecnologias nos proporcionam. Tudo isso regado com psicologismos baratos - espécie de "coitadismo" - tem tornado o Homem um ser menor. Antes foram se perdendo os rituais de passagem da infância para a vida adulta, depois essa infância foi alongada dos 12 anos de idade para os 30, e a tendência é que vá para 50, e assim por diante. Uma pesquisa que li essa semana (me desculpe não lembrar a fonte, mas não é difícil de achar, por ser recente) detectou que os homens têm nascido com menos testosterona, e a tendência é que percamos o cabelo e os músculos se atrofiem.
      Ao lado desse tendência física, na psicologia tendemos a tornar o que antes era desafio, algo "traumatizante", e na educação não é diferente, inclusive com as mães fazendo a lição de casa dos filhos dizendo que "é muita coisa para o coitadinho". E assim eles não aprendem porque têm preguiça de tudo e nenhum interesse, já que as coisas cairão no seu colo sem ter que lutar por elas, ou ao menos é o que esperam. E para piorar o quadro, nossos políticos exercem o máximo da irresponsabilidade quando fazem opções políticas na educação, criando um país já na quarta geração de analfabetos. Agora, dessa geração sairão os professores analfabetos da próxima geração, sem chance de consertar essa loucura.... Me desculpe pelo pessimismo, mas diante da educação que temos, quem está nela inserido não tem como vê-la com outros olhos, a não ser como alguns discípulos sem a crítica que deveriam ter aprendido ainda insistem, colocando óculos de todas as cores para olhar para a educação e para si mesmos, seus achatados salários, os alunos que batem nelas e o quanto são humilhadas por superiores e por toda a sociedade, achando tudo maravilhoso.

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